capa do livro Umbral de Urur
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Em gratidão pelas resenhas e respeito ao Cigano Pablo, envio-lhes um capítulo do livro Umbral. Trata-se de um resgate de um suicida onde o Exu me mostra que o Umbral não é um local em si, um território, mas sim um estado mental onde a consciência expurga sentimentos de erros e falhas graves na evolução. Todos passam pelo Umbral.

Urur

Breve resenha

Li o livro e confesso que achei estranho a ideia de estado de consciência como fator determinante de estar ou não no Umbral, pois a grande parte da literatura espírita o descreve como uma região específica. Quando passei a entender que tal noção de “geografia espiritual” está associada aos valores, crenças e, verdades de cada um. Por afinidades os espíritos se agrupam, plasmam situações, ambientes e sensações em grupos, formam colônias. Este caso do suicida é um exemplo do Umbral em solidão, dor, auto-flagelação do erro conhecido como suicídio.

Vamos ao capítulo do livro.

Umbral é um portal de passagem

UM SUICIDA

 Segundos após as explicações sobre o Umbral, os dois surgem num apartamento de classe média numa capital. Uma família composta de um casal e quatro filhos dividem dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Ambos observam a rotina diária de todos, com o pais arrumando os filhos para os deixarem nas escolas e, irem aos seus respectivos locais de trabalho.

Um dos filhos reclamou de ter tido pesadelos e, estes sonhos terríveis são recorrentes. Mas os pais não dão nem a mínima para a manifestação do filho.

Ambos caminharam até um dos quartos, justamente o espaço aonde os quatro filhos dividem o espaço em duas camas tipo beliches. Túlio pôde perceber as mesmas manifestações energéticas escuras e densas que viu quando no Umbral. Dentro dela um espírito sentado na direção de um beliche. Tal espírito chorava copiosamente, resmungava, clamava por não conseguir sair da tristeza e que precisava dar fim ao sofrimento terminando com sua vida.

Túlio ficou parado enquanto o Exu Corcunda se aproximou do espírito, abaixou e tentou estender a mão.

— Não se aproxime senhor, não quero ajuda! Ahhh! Saia daqui! Quero acabar com a minha vida! — gritou o espírito em puro desespero e lágrimas. Exalava mais energia densa a cada manifestação de desespero.

— Calma criatura! — ordenou o Exu enquanto passava as mãos em volta do espírito, desfazendo aquela massa grossa de energia densa.

Aos poucos tal espírito se acalmou, ficou somente em lágrimas e resmungou por ajuda, até que abraçou o Exu e chorou muito.

— Confie em mim, sou um espírito a trabalho da Lei Maior e não vou fazer-lha mal algum. Estou aqui para atender seus pedidos de socorro. — afirmou o Exu num olhar terno, muito diferente do que Túlio tem visto desde que passou a ser tutelado pelo mentor espiritual. — Você precisa aceitar a ajuda em definitivo para podermos tirar você daqui. — continuou apontando para o outro canto do quarto.

Outros espíritos apareceram observando a tudo, mas sem se manifestarem. A diferença é que emitiam uma energia muito leve, irradiava confiança e respeito ao tempo do espírito sofredor.

Suicídio de Catão de Giambattista Langetti

Logo depois dois filhos da família moradora chegaram e entraram no quarto. Um deles confessou não querer dormir ali por que se sentia muito mal e tinha pesadelos. Acordava com a sensação de que estava sendo enforcado, sentia muita tristeza e que algo dizia que o bom seria fugir da vida se matando. Só não atendia aos sentimentos suicidas por que ama muito a mãe e não queria fazê-la chorar.

O espírito amparado pelo Exu Corcunda chorou muito ao ver o que o sofrimento dele causou aos novos moradores daquele apartamento. Muitas vezes a mãe das crianças teve depressão, o pai ficou agressivo sem nenhuma explicação.

— Calma espírito! Seu sofrimento está prestes a acabar. Não chore pelo que causou a esta família, pois o amor entre eles foi o suficiente para evitar danos maiores. Agora que percebeu que está morto, conte-nos como tudo aconteceu.

O espírito detalhou sua vida na década de quarenta quando o edifício ainda era novinho e, após ser abusado sexualmente pelo seu pai, foi acusado de ser homossexual pelo próprio pai. Quando contou à mãe que havia sido abusado, ela o acusou de ser mesmo homossexual e deu razão ao agressor.

Ele entrou em depressão profunda, não saia mais de casa, até que aos vinte e dois anos se enforcou ali naquele quarto. Durante todos aqueles anos não viu que o apartamento foi ocupado por várias famílias, inclusive contaminando a família anterior com o as energias negativas emanadas pelo estado de consciência. A depressão de uma moça que dormia naquele quarto foi o motivo da venda do apartamento à família atual. Assim que se mudaram a moça melhorou.

Durante décadas ele, o espírito suicida, não teve nenhuma consciência de que estava desencarnado, pois não sentiu dor no processo de morte, apenas apagou inconsciente quando o pescoço quebrou e, quando acordou ali não enxergava mais nada a sua volta, mergulhado no estado extremo de tristeza e mágoa.

Poucas horas antes dos dois chegar ao local, o suicida raciocinou que passava horas e ele não sentia fome, nem sede, muito menos vontade de ir ao banheiro. Mas também não queria sair dali por vergonha e medo.

Os espíritos que estavam no outro lado do quarto se aproximaram, então o espírito suicida pode reconhecer a mãe. Tentou reagir como se tentasse fugir, mas foi acalmado pelo Exu Corcunda, que o segurou pela mão e o fez se aproximar do espírito de uma mulher que chorava muito, porém demonstrava muita felicidade ao vê-lo em pé e indo na direção dela.

Ela o abraçou forte, a ponto da energia exalada interagir com todo o ambiente, o que fez com que as crianças encarnadas que estava ali começarem a pular e cantar, até que saíram eufóricas para a sala. O filho não esboçou nenhuma reação, apenas se deixou ser abraçado.

— Mãe, durante minha vida inteira eu só queria um abraço seu, Queria ser protegido, ser defendido do sofrimento. — falou o espírito suicida em prantos.

— Filho, eu era uma mulher ignorante, apanhava quase todos os dias. Após as surras eu era violentada, abusada e humilhada. Estava num estado mental tão perturbado que parecia uma louca para todos os vizinhos. Na rua me chamavam de louca. Não pude ir ao seu enterro por que eu enlouqueci de vez e morri alguns anos mais tarde num manicômio. — explicou a mão entre soluços.

— Como eu não via você ser agredida? Não pode ser! — questionou o espírito do suicida.

— Hoje entendo que você criou um bloqueio mental e não se lembrava dos meus gritos. Éramos dois loucos abusados pelo mesmo homem. — lamentou a mãe amparada pelo espírito de caridade que lhe acompanhava.

O Exu Corcunda se afastou do espírito do rapaz, parou ao lado de Túlio e, sem que os outros espíritos pudessem ouvi-lo, explicou que o agressor não era tão mal assim, mas sim um espírito que se prontificou cometer tais crueldades para ajudar os dois espíritos a aprenderem através do processo reencarnatório. Ele passou por um processo de desencarne violento, provocado pelo homem com que passou a viver maritalmente só por causa do dinheiro dele. Como só vibrava violência, a passagem pelo Umbral foi muito sofrida e demorou ter um entendimento e voltar ao estado espiritual capaz de ter a missão que se voluntariou concluída.

A mãe do suicida deu trabalho no processo de resgate por que passou muito tempo enlouquecida no Umbral e, mesmo depois de ter os sentimentos expurgados, saiu atrás do filho com um imenso sentimento de culpa pelo abandono. Isso a levou a um segundo Umbral.

Quando viu o estado em que o filho estava como espírito suicida, pois a condição de consciência do rapaz era a que chamamos de Vale dos Suicidas, que nada mais é do que um Umbral com outro nome. Nesse estado de consciência há a culpa pela oportunidade desperdiçada ao interromper a vida. O espírito não tem consciência de que experimenta esse sentimento de erro divino, mas sente uma energia negativa que contribui ao sofrimento. Geralmente essas energias de culpa deixam máculas nos corpos espirituais que podem refletir em encarnações futuras.

O aprendizado através da dor e do sofrimento fez com que essa mãe iniciasse um trabalho solitário com aquilo que tinha em mãos, a lembrança de uma oração. Então ele se recolhia num canto e orava pelas famílias que passavam pelos mesmos problemas. Durante um período equivalente a três anos ela pouco se importava com o que outros espíritos diziam, nem mesmo a possibilidade de que ninguém a estivesse ouvindo a movia da ideia de ajudar as famílias. Para ela não importava qual família, religião ou raça. Pedia pelo amparo divino, proteção e entendimento.

Um dia foi abordada por um grupo de espíritos atraídos pela energia que ela emanava e a convidou a fazer parte de um grupo de amparo espiritual justamente às pessoas em condições semelhantes à que ela viveu quando encarnada.

— Túlio, hoje você teve a graça de ver e entender que nada no Universo é ao acaso e, a não interferência é uma das Leis fundamentais. Os espíritos tem o direito de errar e, o dever de aprender com seus erros. — concluiu o Exu puxando o seu aluno pelo braço. — Viu que o Umbral não tem endereço específico, qualquer espírito atormentado vive seu Umbral que pode ou não ser compartilhado por afinidade.

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